Resenha do livro “O Rei Peste”, de Edgar Allan Poe


Apesar do conto “O Rei Peste”, de Edgar Allan Poe ter sido escrito há quase duzentos anos atrás, sua história critica a dura realidade que envolve até hoje, a política e a sociedade.

Por: Bruno Reis

07.07.2022

O conto “O Rei Peste” (1835), começa com um trecho da peça teatral "A Tragédia de Gorboduc" (1561), de Thomas Norton e Thomas Sackville:


"Os deuses suportam e permitem aos reis as coisas que abominam da ralé.”


A menção dessa peça teatral foi escolhida por Poe para entrosar o conto. "A Tragédia de Gorboduc” é sobre dois irmãos, Ferrex e Porrex, filhos do rei da Grã-Bretanha, Gorboduc. O rei, ainda em vida, anuncia dividir as terras do seu reino entre os dois filhos. O embate da história acontece porque Ferrex quer tomar posse de todo o reino e quando o irmão desconfia disso, mata-o. Para vingar a morte do filho mais velho, a mãe, Videna, mata Porrex. Depois disso, o povo se revolta contra a família real e mata Videna e Gorboduc. A história termina tragicamente com as terras sem governo e com o povo vivendo em terrível miséria e desordem durante muitos anos.


A referência acima já introduz o conto com a relação monarquia e sociedade. As duas histórias, tanto o conto quanto a peça teatral, são sobre uma má política que tem como consequência um reino devastado em cinzas.


Legs e Hugh Tarpaulin, são uma dupla de marinheiros que levam a vida na bebedeira. O primeiro é alto e magro e o segundo é seu oposto, gordo e baixo. Os dois fugiam das cervejarias para não pagar as contas.


Naquele tempo, a Inglaterra sofria com uma doença avassaladora e, por isso, o rei decidiu que todos deveriam ficar trancados em suas casas. O descumprimento dessa ordem era pena de morte. Isso não durou muito tempo, pois os pobres continuavam sendo despejados de suas moradias. O escritor faz uma crítica ao governo monárquico que, na realidade, não se importava com a população. Conforme trecho do conto, apesar do povo viver no caos e na pobreza, a realeza desfrutava de “um rico estoque de vinhos e licores”. Isso também explica porque o conto se chama" O Rei Peste".

Representação de uma cidade europeia atingida por uma peste.

Então, como Legs e Hugh viviam embriagados, eles não se importavam com o que acontecia no país. Mesmo andando nas ruas afetadas pela podridão da morte e destruição das casas, eles seguiam adiante. Até que ouviram um grito saindo de um prédio alto e entraram rapidamente pela porta do local. Nesse momento, os marinheiros encontram a família real em uma sala, que anteriormente era de um agente funerário. A família real estava sentada sobre caixões, em torno de uma mesa farta de bebidas.


Todos embriagados, os seis personagens nessa “reunião” tiveram nomes escolhidos por Edgar Allan Poe de forma satírica: Rei Peste, Rainha Peste, Arquiduquesa Ana-Peste, Arquiduque Peste-Ífero, Duque Peste-Ilencial e Duque Tem-Pestuoso.


Arrogantemente, os monarcas bebiam vinhos e licores em crânios humanos. Uma caveira em cima da mesa, pendurada no teto, iluminava a todos com chamas de carvões que queimavam dentro da cabeça. Para que a iluminação não saísse de dentro da sala, as janelas eram fechadas por caixões empilhados. Essa ambientação foi construída pelo escritor para criticar a família real que desfrutava de seus prazeres fúteis à custa da morte da população. Seus esqueletos serviam de entretenimento para a corte.


No final do enredo, há um confronto entre a família real e a dupla de marinheiros, logo depois que o Rei Peste diz que aquela reunião serviria para encontrar soluções para o problema "morte" que afeta todo o país. Hugh responde ao rei dizendo:


Cujo o nome é Davy Jones!


Davy Jones é uma expressão inglesa utilizada para dizer que o fundo do mar é descanso para marinheiros afogados. No contexto do conto, pode significar "morte" ou "demônio". O rei se ofende a partir do momento que vê a dupla conversando no "mesmo nível" e pretende penalizar os marinheiros pela "grosseria" e atrevimento.

Davy Jones é uma superstição náutica sobre a morte de marinheiros afogados e suas vidas após a morte.

Poe crítica novamente a monarquia, ironizando a imposição de poder por motivos banais e sem a devida preocupação com a doença, que era o que realmente afetava a população. A realeza tem como maior fraqueza suas próprias extravagâncias.


Enfim, “O Rei Peste" é um conto de terror de Edgar Allan Poe que, apesar de ficção, não é tão longe de ser a realidade da sociedade que até hoje vive para sustentar os privilégios e caprichos de seus governantes.


Veja também

Palavras-chave: contos de terror; Edgar Allan Poe histórias extraordinárias; Edgar Allan Poe medo clássico; Edgar Allan Poe biografia; o rei peste social; idade média; Davy Jones pirata, Davi Jones.

LETTERS' FOREST

Desaliene-se.

Seja revolucionário e leia um livro!